Terapia contra câncer surpreende cientistas e faz pacientes voltarem a andar após anos de doença neurológica
Estudo alemão relata recuperação rápida e inédita em duas mulheres com neuropatia autoimune grave resistente a todos os tratamentos; anticorpo usado contra mieloma eliminou proteínas causadoras da doença e restaurou funções nervosas

Imagem: Reprodução
Uma terapia originalmente desenvolvida para combater um tipo agressivo de câncer do sangue está abrindo uma nova fronteira no tratamento de doenças autoimunes do sistema nervoso. Pesquisadores alemães relataram a recuperação rápida e significativa de duas pacientes que sofriam de neuropatias autoimunes incapacitantes e resistentes a todas as terapias disponíveis. Após receberem o medicamento teclistamab, ambas voltaram a caminhar distâncias maiores, apresentaram melhora da função nervosa e registraram desaparecimento completo dos anticorpos e proteínas associados à doença. Os resultados foram publicados neste sábado (30), na revista científica Nature Communications.
O estudo foi conduzido por pesquisadores do Hospital Universitário de Jena e da Universidade Friedrich Schiller de Jena, na Alemanha, liderados pelos neurologistas Jonathan Wickel, Mihai Ceanga e Christian Geis. A investigação avaliou duas mulheres, de 65 e 73 anos, diagnosticadas com neuropatias inflamatórias crônicas mediadas pelo sistema imunológico, doenças progressivas que atacam a bainha de mielina dos nervos periféricos e comprometem movimentos, equilíbrio e sensibilidade.
As duas pacientes haviam passado anos enfrentando um declínio constante. Corticoides, imunoglobulina intravenosa, plasmaférese e até rituximabe — considerado uma das principais alternativas terapêuticas para casos graves — falharam em interromper o avanço da doença. Em uma delas, a distância máxima percorrida a pé havia caído para apenas 300 metros. A outra sofria quedas frequentes, fraturas e perda progressiva da capacidade motora.
Foi nesse contexto que os pesquisadores decidiram utilizar o teclistamab, um anticorpo biespecífico aprovado para tratar mieloma múltiplo recidivante. O medicamento pertence à classe conhecida como BiTE (Bispecific T-cell Engager), capaz de aproximar linfócitos T das células produtoras de anticorpos patológicos, promovendo sua destruição seletiva. O alvo principal é uma proteína chamada BCMA, presente em células B maduras e plasmócitos responsáveis pela produção dos autoanticorpos associados à doença.
Os resultados impressionaram os próprios autores.
Segundo o estudo, a primeira paciente apresentou aumento progressivo da distância de caminhada, melhora da força muscular, redução das dores neuropáticas e recuperação significativa dos parâmetros eletrofisiológicos que medem a condução dos impulsos nervosos. Exames de ultrassom mostraram diminuição do inchaço dos nervos, enquanto marcadores sanguíneos indicaram redução do dano neuronal. Nove meses após o início do tratamento, os benefícios permaneciam estáveis.
A segunda paciente apresentou evolução ainda mais dramática. Sua capacidade de caminhada aumentou mais de seis vezes em apenas seis meses. Os exames revelaram melhora da velocidade de condução nervosa, recuperação funcional dos nervos afetados e redução expressiva do edema neural. Além disso, ela relatou melhora da qualidade de vida, menor dor e maior independência para atividades diárias.
Um dos achados mais relevantes foi o desaparecimento completo dos anticorpos considerados motores da doença. No caso da paciente com neuropatia associada a anticorpos anti-MAG — um dos subtipos mais difíceis de tratar — os títulos elevados desses anticorpos tornaram-se indetectáveis poucas semanas após o início da terapia e permaneceram negativos durante todo o acompanhamento.
“Teclistamab induziu uma resposta clínica rápida”, destacam os autores, ao relacionar a melhora funcional à eliminação dos autoanticorpos e à redução dos marcadores de lesão neuronal.
O trabalho surge em um momento de intensa transformação da neuroimunologia. Nos últimos anos, terapias celulares CAR-T, desenvolvidas inicialmente para cânceres hematológicos, passaram a demonstrar resultados promissores em doenças autoimunes graves como miastenia gravis, neuromielite óptica e síndromes neurológicas raras. No entanto, esses tratamentos exigem coleta e modificação genética das células do próprio paciente, além de procedimentos complexos e extremamente caros.
Na avaliação dos pesquisadores, o teclistamab oferece vantagens importantes por ser uma terapia pronta para uso, dispensando coleta celular, manipulação genética e quimioterapia preparatória. Isso pode tornar a estratégia mais acessível e rápida de implementar em centros especializados.
Os efeitos adversos observados foram considerados administráveis. As pacientes apresentaram episódios leves de síndrome de liberação de citocinas, redução temporária de algumas células sanguíneas e diminuição dos níveis de imunoglobulinas, condições controladas com medicamentos de suporte e sem necessidade de interrupção do tratamento. Nenhum evento adverso grave foi registrado.

Apesar do entusiasmo, os próprios autores alertam para as limitações da pesquisa. Trata-se de uma série de casos envolvendo apenas duas pacientes e com acompanhamento de seis a nove meses. Estudos clínicos maiores serão necessários para confirmar a eficácia, a segurança e a durabilidade da resposta observada.
Ainda assim, especialistas consideram o relato um marco conceitual. Pela primeira vez, uma terapia BiTE demonstrou potencial para reverter danos neurológicos em neuropatias autoimunes refratárias, um cenário em que muitos pacientes convivem durante anos com incapacidades progressivas e poucas alternativas terapêuticas.
Se os resultados forem reproduzidos em estudos mais amplos, o tratamento poderá inaugurar uma nova geração de terapias imunológicas de precisão para doenças neurológicas, ampliando o alcance de tecnologias criadas para o combate ao câncer e oferecendo esperança a milhares de pacientes que hoje enfrentam a perda gradual da mobilidade e da autonomia.
Referência
Wickel, J., Ceanga, M., Vlad, B. et al. Efeito terapêutico do engajador de células T em dois pacientes com neuropatia autoimune. Nat Commun 17 , 4816 (2026). https://doi.org/10.1038/s41467-026-73819-1